CONY, Carlos Heitor
| Tipo | Biográfico |
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| Cargos |
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| Autor(es) | Beatriz Kushnir |
Carlos Heitor Cony nasceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, no dia 14 de março de 1926, filho de Ernesto Cony Filho, jornalista, e de Julieta de Morais Cony. Seu avô paterno, descendente de franceses de origem marroquina e formado na Europa, foi o fundador da Escola Normal do Rio de Janeiro.
Aprendeu as primeiras letras na casa paterna e, disposto a dedicar-se à vida religiosa, ingressou em 1938 no Seminário de São José, na capital federal, onde iniciou também sua atividade literária. Autor do Hino das férias, por muito tempo adotado por aquele estabelecimento de ensino, e colaborador da revista O Seminário, renunciou em 1945 à formação religiosa, desiludido com o sacerdócio e por incompatibilidade com as normas disciplinares do seminário. Nesse mesmo ano ingressou na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas abandonou o curso em 1947.
Em substituição a seu pai, que se encontrava de férias, ingressou ainda nesse ano no Jornal do Brasil, iniciando aí sua carreira jornalística. Por essa época trabalhava também na Câmara Municipal do Distrito Federal. Passando a dedicar-se mais intensamente às letras, recebeu em 1957 e 1958 o prêmio Manuel Antônio de Almeida, concedido pela Prefeitura do Rio de Janeiro, por seus livros A verdade de cada dia e Tijolo de segurança, que seriam publicados respectivamente em 1959 e 1960.
A partir de 1960 passou a colaborar no Correio da Manhã, escrevendo reportagens internacionais e, em seguida, editoriais. Em 1962, revezando-se com Otávio de Faria, começou a redigir crônicas políticas publicadas três vezes por semana nesse jornal na seção intitulada “Da arte de falar mal”.
Entre 1963 e 1965, passou a redigir uma coluna no jornal Folha de São Paulo que dividiu com a poeta Cecília Meireles. Sua primeira matéria escrita para o Correio da Manhã após o movimento político-militar de 31 de março de 1964, que afastou do poder o presidente João Goulart (1961-1964), foi marcada pela indignação e transformou o seu espaço neste jornal em uma tribuna política nos meses seguintes. Sobre suas posições nesta época, disse não ser um político, nem querer ser “(...) um jornalista político. Escrevi sobre a situação nacional numa hora em que a política era secundária. O que ficou em jogo foi a dignidade da pessoa humana, das instituições civilizadas”. Assim, suas reflexões para “Da arte de falar mal”, do Correio da Manhã, tornaram-se segundo o escritor Rui Castro, “(...) uma trincheira contra as arbitrariedades do [regime autoritário que vigorava no país, e ] irritou a direita e surpreendeu a esquerda”.
Essas suas crônicas na imprensa foram selecionadas e publicadas ainda em 1964 sob o título de O ato e o fato. Pouco depois, entretanto, demitiu-se do Correio da Manhã e ingressou na Editora Bloch, onde passou a colaborar na revista Manchete, perdendo o tom oposicionista que lhe trouxera fama.
Em novembro de 1965 – juntamente com outros intelectuais, entre os quais Glauber Rocha, Antônio Calado, Flávio Rangel, Tiago de Melo e Márcio Moreira Alves - participou de um protesto contra o presidente da República, marechal Humberto Castelo Branco por ocasião de reunião dos países-membros da Organização dos Estados Americanos (OEA), realizada no Hotel Glória, no Rio. Isto porque o regulamento da OEA proibia que se realizassem conferências em países não-democráticos. A conferência na cidade do Rio de Janeiro, contudo, já estava marcada quando ocorreu o golpe militar de 1964.
A vaia que o presidente Castelo Branco recebeu nessa manifestação, levou-o à prisão com Calado e Glauber. Durante o mês que passou na prisão, começou a escrever o livro Pessach: a travessia, enquanto Glauber finalizava as cenas do filme Terra em Transe e Calado terminava de escrever Quarup. Em comum, as três obras abordam a questão da guerrilha e da luta armada como solução para o panorama político do país naquele momento. Cony foi preso outra vez, horas depois da decretação do Ato Institucional n°5 (AI-5), em 13 de dezembro de 1968.
Após responder oito processos, três IPMs e ser preso seis vezes por “delito de opinião”, deixou o país. Um dos processos a que foi submetido teve como autor o então ministro da Guerra, general Artur da Costa e Silva, que se utilizou deste fato para provar a existência de uma imprensa livre no país, dizendo que existia “(...) um cronista que me ataca diariamente, e está em liberdade”. Depois deste período de auto-exílio, retornou, em 1970, trabalhando na editoria de revistas. Perguntado acerca de sua posições políticas, se autodefiniu como “inteligente o bastante para não ser de direita, mas muito rebelde para ser de esquerda”.
Nas empresa Bloch, lançou a revista Ele e Ela e dirigiu as revistas Desfile e Fatos & Fotos. Com a aquisição de um canal de TV pelo grupo Manchete, trabalhou, entre 1985 e 1990, no núcleo de dramaturgia, apresentando os projetos e as sinopses das novelas A Marquesa de Santos, Dona Beja e Kananga do Japão. Na década de 1990, tornou-se assessor da diretoria das empresas Bloch.
A partir de março de 1993, passou a ocupar uma coluna no jornal Folha de São Paulo, substituindo Oto Lara Resende que falecera um ano antes.
Representante do romance de costumes carioca e de um realismo existencialista, Cony, que também dedica-se ao romance político, definiu sua temática central como a da “falta de sentido do homem e o seu inevitável tropeço rumo à destruição, motivada pela própria imbecilidade”.
Além das obras acima citadas, publicou O ventre (romance, 1958, reeditado em 1996), Informação ao crucificado (romance, 1961), Matéria de memória (romance, 1962), Antes, o verão (romance, 1964), Da arte de falar mal (crônicas, 1964), Os sete pecados capitais (em colaboração, 1964), Posto seis (1965), Balé branco (romance, 1966), Pessach: a travessia (romance, 1967), Quem matou Vargas (biografia, 1968; 2ª. ed. 1974), Charles Chaplin (ensaio e antologia), Sobre todas as coisas (contos e novelas, 1969, reeditada com o título de Babilônia! Babilônia, 1978), Pilatos (romance, 1974), O caso Lou: assim é se lhe parece (1975), JK, memorial do exílio (biografia, 1982), Quase Memória (romance, 1995) e O piano e a orquestra (romance, 1996). Dedicou-se também à literatura infanto-juvenil, traduzindo e adaptando textos de Mark Twain, R.L. Stevenson, Emílio Salgari, Jules Verne, Charles Kingsley, Lewis Wallace, Alain-Fournier, Herman Melville. Voltou-se para a tradução de literatura clássica de autores como Máximo Gorki, Alexandre Dumas e Dostoievski.
Em julho de 1996, recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras (ABL), o mais importante desta instituição, pelo conjunto de sua obra. Afirmou, contudo, não pretender se candidatar a uma vaga na ABL, já que “(...) esse prêmio só aumenta a minha disposição de não entrar para a Academia. Já tenho o mais, que é o prêmio com o nome de Machado, não preciso ter o menos, que seria ser membro da ABL”. Em 15 de agosto deste mesmo ano, foi agraciado com o prêmio Jabuti na categoria ficção pelo seu livro Quase Memória.
Em junho de 2000, tomou posse na Academia Brasileira de Letras, ocupando a vaga aberta com a morte do romancista Herberto Sales.