SILVEIRA, Pelópidas

Pelópidas Silveira nasceu em Recife no dia 15 de abril de 1915, filho de Lisenando Elísio Silveira e de Laura de Sousa Silveira.

Cursou o primário no Colégio Santa Margarida e o secundário no Colégio Salesiano Padre Félix, então Ginásio de Recife, e no Ginásio Pernambucano, hoje Colégio Estadual. Ingressou na Escola de Engenharia de Pernambuco e, desde o terceiro ano do curso, trabalhou no porto de Recife como assistente técnico, tendo participado também da construção de estradas no interior do estado. Bacharelou-se em 1935.

Em 1936 tornou-se assistente da cadeira de resistência de materiais da Escola de Engenharia, passando depois a reger a cadeira de construção civil, recém-criada na Universidade de Pernambuco. Em 1938, foi assistente do professor Nílton Mara, na Escola de Arquitetura - que então funcionava na Escola de Belas-Artes -, e passou a reger a cadeira de resistência de materiais quando do afastamento do titular, lutando ainda pela inclusão da Escola de Belas-Artes na Universidade de Pernambuco.

Participou da criação do Instituto Tecnológico do Estado de Pernambuco (ITP), fundado por um grupo de engenheiros, sendo enviado em 1943 a São Paulo para um curso de especialização em solos e fundações e em estruturas. Passou quase um ano entre São Paulo e o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, onde estudou por seis meses no Instituto Nacional de Tecnologia. Quando voltou a Recife, organizou a seção de solos e fundações do ITP, que passaria a dirigir.

Com o fim do Estado Novo (1937-1945) e a redemocratização do país, foi nomeado prefeito de Recife, tendo exercido o cargo de fevereiro a agosto de 1946, no governo do interventor José Domingues da Silva. Fez uma administração que o tornou popular, pois regulamentou a semana inglesa para os comerciários, alargou ruas e construiu praças, além de tabelar o preço do pescado na Semana Santa. Deixou a prefeitura quando José Domingues da Silva foi afastado por pressão de grupos oligárquicos e substituído pelo general Demerval Peixoto. Logo depois, começou a participar ativamente em Pernambuco da campanha pelo monopólio estatal do petróleo, organizando o Congresso de Defesa do Petróleo e tornando-se membro do Centro de Defesa do Petróleo. Não obstante, o monopólio estatal seria instituído apenas em 1953, durante o segundo governo do presidente Getúlio Vargas.

Em 1947 candidatou-se ao governo de Pernambuco na legenda do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e com o apoio do Partido Comunista Brasileiro, então Partido Comunista do Brasil (PCB), já na ilegalidade. Venceu a eleição em Recife, com 38.000 votos, e nas cidades de Jaboatão, São Lourenço da Mata e Olinda, mas perdeu no interior para Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho, candidato do Partido Social Democrático (PSD), que afinal foi eleito. Os outros candidatos eram Manuel Neto Campelo Júnior, da União Democrática Nacional (UDN), e Eurico de Sousa Leão, do Partido Republicano (PR). Em 1949 Pelópidas Silveira abriu um escritório de construção civil, que manteve até 1954, quando deixou também o ITP para se dedicar ao ensino superior e à política.

Em 1955 filiou-se em Pernambuco à Liga de Emancipação Nacional (LEN), sociedade civil fundada no Rio de Janeiro em abril de 1954 para defender as liberdades democráticas e lutar pelo desenvolvimento autônomo da economia do Brasil. Em junho de 1956 a LEN seria fechada pelo presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961), acusada de infiltração comunista. Ainda em 1955, fez parte da comissão organizadora do Congresso para a Salvação do Nordeste, embrião da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).

Nesse ano houve a primeira eleição para prefeito de Recife - até então nomeado pelo governador -, devido a uma lei de iniciativa do deputado Antônio de Barros Carvalho, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que tornou a capital uma cidade autônoma, com direito a eleger seu prefeito. Sem estar filiado a nenhum partido, em dezembro de 1955 Pelópidas foi lançado candidato com o apoio da Frente de Recife, movimento popular que agrupava comunistas, trabalhistas, socialistas e partidários de outros segmentos, entre eles o PTB, o PSB e pequenas agremiações como o Partido Trabalhista Nacional (PTN), ligado ao PTB. Houve a tentativa de impugnar sua candidatura, sob a acusação de que era comunista, mas o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) deu-lhe o registro por unanimidade. Nesse período, o governador era o general Osvaldo Cordeiro de Farias, do PSD, e Pelópidas Silveira, após sua eleição, passou a contar, na Câmara Municipal, com apoio de quatro vereadores, contra 19 que lhe faziam oposição.

Na prefeitura de Recife

Durante sua administração, entregou ao público a avenida Conde de Boa Vista, ligando o centro da cidade aos subúrbios mais populosos; construiu a avenida Norte em concreto, ligando o bairro portuário à vila dos comerciários em Casa Amarela; adquiriu o sítio Trindade, que datava da época da ocupação holandesa e estava ameaçado de ser loteado, transformando-o em logradouro histérico; construiu jardins e praças; adquiriu o Teatro do Parque; modernizou a frota coletora de lixo; regulamentou a feira do livro, a higienização do mercado e dos matadouros públicos, e criou o entreposto de abastecimento, diminuindo o custo de intermediação. Sua Secretaria de Agricultura aproveitou terras ao redor de Recife para a plantação de legumes.

Instalou ainda ônibus elétricos em Recife e criou um Conselho de Finanças, do qual faziam parte industriais e comerciantes. Inspirado nas comissões de bairro de São Paulo, fundou associações de bairro e organizou um modelo de estatuto, dando uma orientação mínima à sua formação. Essas associações passaram a se constituir num elo entre o Executivo estadual e a população, auxiliando-o, através de mutirões, em obras de infra-estrutura dos bairros. Além de criar as associações, Pelópidas passou a realizar quinzenalmente audiências coletivas no Teatro Santa Isabel, nas quais eram discutidos os principais problemas da cidade.

Nesse período de sua administração, foi convidado para integrar uma banca examinadora na Faculdade de Arquitetura de São Paulo, passando o cargo para o vice-prefeito, o deputado Vieira de Meneses. Este, em 15 dias de gestão, além de demitir o diretor de Administração, o jornalista Carlos Luís de Andrade, causando a exoneração em massa de todos os secretários da prefeitura, nomeou ainda dezenas de pessoas para importantes cargos públicos e ameaçou não entregar o cargo ao titular. Ao regressar, Pelópidas foi aclamado em um comício, conseguindo restaurar a ordem na prefeitura com o apoio das correntes políticas que compunham a Frente .de Recife.

Em outubro de 1958 foi candidato a vice-governador na chapa encabeçada por Cid Sampaio e apoiada pela UDN, pelo PTB, o PSB, o PTN e o Partido Social Progressista (PSP). Eleito, só tomou posse no dia 15 de dezembro de 1959, 11 meses após a data em que deveria ter assumido, já que não podia acumular as funções de prefeito de Recife e as de vice-governador. Para defender a acumulação de cargos recorrera ao TRE e fora derrotado, mas apresentara recurso ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que, todavia, não chegou a julgar a questão uma vez que se encerrara sua gestão na prefeitura, onde foi substituído por Miguel Arrais.

Permaneceria no cargo de vice-governador até 1963, tendo exercido interinamente o governo em várias oportunidades. Num desses períodos, em junho de 1961, quando Cid Sampaio se encontrava no Rio de Janeiro, foi desagrada uma greve estudantil em Recife, abrangendo a Universidade Federal e a Universidade Rural, e cujo comando geral funcionava na Faculdade de Direito. O movimento ganhou vulto na cidade, sendo apoiado pelas organizações sindicais. Devido à relutância de Pelópidas em autorizar a invasão da faculdade pela Policia Civil, Arrais intercedeu, apelando para que não fossem praticados atos de violência contra os estudantes. Entretanto, por ordem expressa do presidente Jânio Quadros (1961), tropas do IV Exército invadiram violentamente a Faculdade de Direito, sufocando o movimento.

O episódio do navio português Santa Maria também ocorreu durante um dos períodos em que ocupava interinamente a chefia do governo. Apresado por um grupo anti-salazarista sob o comando do capitão Henrique Galvão, o Santa Maria vinha da Venezuela com 24 revoltosos, seiscentos passageiros e trezentos tripulantes e entrou nas águas territoriais brasileiras, dirigindo-se ao porto de Recife, onde recebeu asilo do governo do estado. Galvão aceitou o asilo e ficou hospedado no Quartel Derby da Polícia Militar de Pernambuco, com plena liberdade de locomoção, até que as autoridades diplomáticas resolvessem o assunto.

Em 1962, foi candidato a deputado federal na legenda da Aliança de Base Cívica (ABC), formada pelo PSB - ao qual se filiara em 1960, integrando também seu diretório nacional -, e pelo Partido Social Trabalhista (PST), mas obteve apenas a primeira suplência e não chegou a exercer o mandato. Participou da campanha eleitoral que conduziu Miguel Arrais ao governo pernambucano em outubro de 1962, tornando-se seu secretário de Viação, cargo que ocuparia até dezembro de 1963, simultaneamente ao de professor da Faculdade de Arquitetura.

Em agosto de 1963 reelegeu-se prefeito de Recife, apoiado pelo PSB e pelo PTB, assumindo em dezembro. Foi deposto pelo movimento político-militar de março de 1964 e levado, no dia 2 de abril, para o IV Exército, onde foi detido pelo chefe do estado-maior, general Isaac Nahon, que lhe pediu a renúncia, recebendo no entanto resposta negativa. No mesmo dia, a Câmara Municipal votou seu impedimento por 20 votos contra um - do vereador Jarbas Holanda, que foi preso -, declarando seu cargo vago poucos dias depois, quando assumiu o vice-prefeito Augusto Lucena. Foi cassado no dia 10 de abril seguinte por força do Ato Institucional nº 1 (AI-I), tendo permanecido sob a custódia do Regimento de Obuses, em Olinda (PE), durante cinco meses. Transferido para a Companhia de Guardas para prestar depoimentos, seguiu depois para o Hospital do Exército para tratamento de saúde. Foi libertado em 15 de dezembro de 1964.

Em março de 1965 foi processado com mais 38 pessoas, mas requereu à Auditoria Militar que se declarasse incompetente para julgá-lo, porque tinha foro especial devido aos cargos que exercera. A auditoria concordou e o processo passou à Justiça Civil, que não chegou a apreciá-lo pois, em 1966, o AI-2 transferiu todos os processos para a Justiça Militar. Foi aposentado em outubro de 1965, ao lado de outros seis professores da Universidade de Pernambuco.

Em julho de 1979 filiou-se ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), de oposição ao governo federal, e, após extinção do bipartidarismo em novembro do mesmo ano, filiou-se ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Em 15 de maio de 1980 foi beneficiado pela Lei da Anistia, decretada no governo do general João Batista Figueiredo, reintegrando-se à Universidade Federal de Pernambuco, em cuja Escola de Engenharia lecionou as disciplinas resistência dos materiais e formação dos solos durante dez meses.

Aposentado desde 1981, passou a trabalhar exclusivamente na empresa Nacional Gás Butano, à qual estava ligado desde 1964.

Casou-se com Maria da Luz de Sousa Campos, com quem teve três filhos.