CARTA BRANDI
| Tipo | Temático |
|---|---|
| Autor(es) | Sérgio Lamarão |
Carta divulgada em setembro de 1955, endereçada a João Goulart, candidato a vice-presidente da República, e atribuída ao deputado argentino Antônio Jesús Brandi. O documento aludia a supostas articulações de Goulart com o governo argentino, chefiado por Juan Domingo Perón, visando à deflagração no Brasil de um movimento armado de cunho sindicalista. Um inquérito policial-militar, instaurado em outubro do mesmo ano, comprovou tratar-se de um documento apócrifo, forjado por falsários argentinos para ser vendido aos opositores de Goulart.
A Carta Brandi foi veiculada pela primeira vez no dia 16 de setembro de 1955, em um programa de televisão. O documento foi lido por Carlos Lacerda, jornalista e deputado federal pela União Democrática Nacional (UDN), partido que aglutinava a oposição às candidaturas de Juscelino Kubitschek e João Goulart nas eleições presidenciais de 3 de outubro de 1955. No dia seguinte, a carta foi publicada na íntegra pelos jornais Tribuna da Imprensa, de propriedade de Lacerda, e O Globo.
A carta, datada de 5 de agosto de 1953, estava escrita em papel timbrado da presidência da Câmara de Corrientes, cidade argentina vizinha a Uruguaiana, no Rio Grande do Sul. Era dirigida a João Goulart, então ministro do Trabalho do governo Getúlio Vargas, e assinada pelo deputado argentino Antonio Jesús Brandi. O conteúdo do documento referia-se, entre outros pontos, à formação de uma “coordenação sindical entre o Brasil e a Argentina”, à criação de “brigadas operárias de choque” e à compra de determinadas mercadorias em Córdoba, que Lacerda concluiu tratar-se de material bélico destinado ao suposto movimento armado sindicalista. Os armamentos entrariam no Brasil através de Uruguaiana.
Lançado num momento de grande agitação política, e a menos de 20 dias das eleições, o documento teve grande repercussão nos círculos políticos e militares. Uma comissão de deputados do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), do qual Goulart era o presidente, solicitou ao ministro da Guerra, general Henrique Lott, a abertura de um inquérito policial-militar que esclarecesse a autenticidade da carta. O general Emílio Maurel Filho, secretário-geral do Ministério da Guerra, foi encarregado de chefiar o Inquérito Policial-Militar (IPM) instaurado a seguir.
No dia das eleições, o Ministério da Guerra emitiu nota, baseada em notícias enviadas da Argentina, dando margem a admitir-se a denúncia como verdadeira. De fato, o general Maurel mandara a Lott um telegrama cifrado no qual afirmava que a polícia argentina chegara à conclusão de que era “sumamente provável” que a mão que assinara a carta tivesse sido a mesma que havia firmado as assinaturas de Brandi em outros documentos.
Ainda em outubro, porém, o inquérito concluiu que a carta era “incontestavelmente falsa”, forjada pelos falsários Cordero e Malfussi, que posteriormente foram presos e condenados. Muniz Bandeira levanta a hipótese de que a Central Intelligence Agency (CIA), órgão de informações do governo norte-americano, estivesse envolvida no caso.