DIRETRIZES
| Tipo | Temático |
|---|---|
| Autor(es) | Carlos Eduardo Leal |
Revista mensal lançada em 1938 por Samuel Wainer, e transformada em jornal semanal em 1941. Este foi fechado pela primeira vez em 4 de julho de 1944, reaberto em 1945, e definitivamente extinto no final da década de 1940.
A revista
Fundada pouco depois da decretação do Estado Novo com o subtítulo “Política, Economia e Cultura” Diretrizes iria defrontar-se com possibilidades restritas no tocante à amplitude de suas matérias. Embora a revista tivesse a preocupação de causar impacto num cenário onde o esvaziamento político era a tônica, seus primeiros números foram marcados por um caráter exclusivamente acadêmico. Tratando de assuntos literários, políticos, econômicos e sociais, Diretrizes pretendia atingir um público intelectualmente preparado.
Em sua primeira fase, Diretrizes não teve problemas com a censura. Entre seus colaboradores destacaram-se Osório Borba, Marques Rebelo, Otávio Malta, Jorge Amado, Genolino Amado, Álvaro Moreira, Francisco de Assis Barbosa e Rubem Braga. A direção era dividida entre Samuel Wainer e Maurício Goulart.
O jornal até 1944
A partir de 1941, Diretrizes transformou-se em jornal semanal, datando desse momento seu enriquecimento político e seu caráter mais popular. O abandono da postura acadêmica representou uma tentativa de contribuir para a abertura política do Estado Novo. A linha liberal adotada pelo jornal, opondo-se ao situcionismo, iria valer-lhe diversas apreensões pela polícia, além de constantes problemas com o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do governo.
Por outro lado, segundo Francisco de Assis Barbosa, embora fosse contrário ao lado autoritário da política de Getúlio Vargas, Diretrizes apoiava algumas medidas econômicas e sociais de seu governo. Assis Barbosa define o semanário como “um jornal popular, com espírito liberal”, que tinha a maior parte de seus leitores entre as chamadas camadas médias.
Ainda segundo Assis Barbosa, a despeito das divergências com o governo,Diretrizes teria recebido durante algum tempo o apoio de João Alberto Lins de Barros, então presidente da Comissão de Defesa da Economia Nacional. Procurando prescindir desse auxílio, Samuel Wainer teria vendido ações do jornal, entre outros, a João Cleofas, Virgílio de Melo Franco e Levi Carneiro.
O relançamento de Diretrizes em 1941 foi marcado por uma série de matérias rememorando as atividades levadas a cabo pelos “tenentes” na década de 1920. Segundo Paulo Silveira, o jornal “reviveu o mito do tenentismo no Brasil, relembrando a luta desses militares”.
Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, em 31 de agosto de 1942, o espaço para o questionamento do Estado Novo ampliou-se ainda mais. Diretrizes pôde assim apoiar a Força Expedicionária Brasileira (FEB) e seu propósito de combater as forças nazi-fascistas.
Até o ano de 1944, Diretrizes moveu diversas campanhas, defendendo a criação de uma siderurgia nacional e combatendo a desnacionalização da indústria farmacêutica, que se encontrava ameaçada pela posição hegemônica das indústrias químicas estrangeiras.
O jornal publicou também entrevistas que alcançaram grande sucesso. A primeira delas foi concedida a Otávio Malta por Aparício Torelly, o barão de Itararé, que discorreu sobre o remédio contra a febre aftosa. Em seguida, Assis Barbosa entrevistou Heitor Vila-Lobos, que criticava asperamente a submissão dos compositores brasileiros aos padrões europeus de música. A partir daí, desencadeou-se um debate do qual participaram os compositores Barroso Neto, Oscar Lorenzo Fernandez, Francisco Braga e Francisco Mignone.
Diretrizes realizou igualmente entrevistas de caráter político. Numa delas, Joel Silveira ouviu Virgílio de Melo Franco, enquanto em outra, Assis Barbosa apresentou a prestação de contas da vida política de J. J. Seabra, político baiano ativo sobretudo durante a República Velha.
Uma das principais reportagens de Diretrizes nessa fase foi a que Assis Barbosa realizou com Dilermando de Assis, oficial do Exército que havia assassinado Euclides da Cunha e o filho deste. A entrevista foi publicada com o intuito de rechaçar o Conteúdo do livro de Elói Pontes, A vida dramática de Euclides da Cunha, e acabou por elevar significativamente a tiragem do jornal.
Segundo Paulo Silveira, à medida que se aproximava o fim da guerra, Diretrizes ia adotando uma posição de centro-esquerda. Por fim, em 1944, o jornal publicou uma entrevista de Assis Barbosa com o ex-ministro Lindolfo Collor, cujas consequências não se fariam esperar. Collor discorreu sobre a guerra e sobre seu livro, Europa-39. Para o ex-ministro, enquanto os Aliados lutavam contra o nazi-fascismo, o Brasil vivia sob um regime ditatorial de caráter semelhante ao que combatia além-mar. Era de se desejar que o fim da guerra na Europa significasse o fim da ditadura no Brasil.
O caráter provocativo dessa entrevista fez com que o DIP comunicasse a Samuel Wainer o corte do suprimento de papel a seu jornal que se viu assim forçado a encerrar suas atividades. Embora Diretrizes congregasse elementos de esquerda em sua redação, como Astrogildo Pereira e Alceu Marinho Rego, cujas matérias de alguma forma expressavam suas posições, o conteúdo apresentado jamais chegara ao nível de provocação atingido pela entrevista de Lindolfo Collor.
O fechamento de Diretrizes em sua fase semanal levou Samuel Wainer a se exilar nos Estados Unidos, a despeito da opinião dos advogados Levi Carneiro e Dario de Almeida Magalhães, que acreditavam na possibilidade de liberar o jornal.
Última fase
Em 1945, Samuel Wainer retornou dos Estados Unidos e reabriu Diretrizes, desta vez em edição diária e vespertina. A volta de Wainer foi possível graças à queda do Estado Novo e ao início da redemocratização do país.
Durante o governo de José Linhares, Diretrizes denunciou os favoritismos que o presidente concedeu à sua própria família.
Por outro lado, o jornal teve mais uma vez necessidade de recorrer ao apoio de João Alberto, que lhe cedeu máquinas e rotativas. Representando João Alberto, ingressou na redação o jornalista Osvaldo Costa, que acabou por assumir a direção do periódico. Devido a divergências com Osvaldo Costa, Samuel Wainer viajou para a Europa, com o objetivo de cobrir os julgamentos de Nuremberg. Com Osvaldo Costa, permaneceram Otávio Malta, Assis Barbosa e Joel Silveira.
Nessa fase, além de defender o monopólio estatal do petróleo, o jornal apoiou, por ocasião da campanha eleitoral de 1945, a candidatura de Hermes Lima à Câmara Federal. Quanto à sucessão presidencial, o jornal não se definiu em relação às candidaturas do general Eurico Gaspar Dutra e do brigadeiro Eduardo Gomes. Preferiu esperar que Vargas indicasse um candidato popular, aventando as indicações de João Neves da Fontoura e de Prestes Maia. Assis Barbosa chegou a entrevistá-los, assim como a Luís Carlos Prestes.
Por fim, com a vitória do general Dutra, Diretrizes não chegou a ser especificamente um órgão de oposição, limitando-se a enfatizar o que podia ser satirizado no governo. Mostrou-se, entretanto, decididamente contrário ao fechamento do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e à cassação dos mandatos de seus representantes, na medida em que havia apoiado a anistia, a Assembleia Constituinte e a legalidade do PCB.
Em sua última fase, Diretrizes apresentou um caráter eclético, publicando matérias que iam “do sofisticado ao popular”, segundo Paulo Silveira. Passou a enfatizar os esportes, as reportagens de interesse comunitário e as reportagens policiais. Entretanto, o jornal não conseguiu manter-se por muito tempo. A maioria das ações pertencia na época a Osvaldo Costa, mantendo Samuel Wainer apenas um pequeno interesse. Diretrizes acabou por ser vendida a um grupo liderado por Arquimedes Pereira de Melo. Os novos proprietários, não podendo manter a antiga equipe com o padrão salarial anterior, em pouco tempo viram-se forçados a fechar definitivamente o periódico.