BATISTA, Eliezer
| Tipo | Biográfico |
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| Cargos |
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| Autor(es) | Renato Lemos |
Eliezer Batista da Silva nasceu em Nova Era (MG) em 4 de maio de 1924, filho de José Batista da Silva e Maria da Natividade Pereira.
Formou-se em 1948 pela Escola de Engenharia da Universidade do Paraná e, no ano seguinte, ingressou como engenheiro na Companhia Vale do Rio Doce. Trabalhando no Departamento de Construções da Estrada de Ferro Vitória-Minas, realizou, na região de Governador Valadares (MG), a remodelação de seu traçado e inaugurou variantes. Ocupou, posteriormente, os cargos de chefe do Departamento da Via Permanente (1951) e de assistente de engenharia (1957). Em maio de 1959, foi nomeado superintendente da estrada.
Em 1961, o presidente Jânio Quadros o convidou para a direção da Companhia Vale do Rio Doce, que assumiu em abril, em substituição a Francisco de Sá Lessa. Já como presidente, fez cursos de especialização profissional nos Estados Unidos, Inglaterra, Suécia, Alemanha, França, Noruega e Bélgica. Encontrava-se no exercício dessa função quando, em 18 de setembro de 1962, durante o período parlamentarista do governo João Goulart, foi nomeado ministro das Minas e Energia em substituição a João Mangabeira. Integrava o gabinete provisório chefiado por Hermes Lima (1962-1963).
Depois do plebiscito de 6 de janeiro de 1963 que restabeleceu o regime presidencialista, Goulart recuperou os poderes atribuídos ao presidente pela Constituição de 1946, que havia perdido em parte com a instituição do regime parlamentarista em 1961. Como decorrência, recompôs o ministério, mantendo alguns dos titulares, entre os quais Eliezer, que continuou a acumular a pasta das Minas e Energia com a direção da Companhia Vale do Rio Doce.
Em abril de 1963, participou de uma comissão interministerial, criada pelo presidente em substituição à Comissão de Nacionalização das Empresas Concessionárias do Serviço Público (Conesp), para estudar e proceder à compra das subsidiárias da Bond and Share, pertencente ao grupo American and Foreign Power Company, e da International Telephone and Telegraph (ITT). As negociações entre o governo e a Amforp se desenvolveram ao longo de todo o mês de abril, tendo resultado em um acordo que previa a compra dos bens da companhia americana por 135 milhões de dólares, 75% dos quais deveriam ser reinvestidos no país em empresas que não operassem no ramo dos serviços públicos. O acordo provocou forte oposição dos setores nacionalistas mais radicais, que consideravam esse preço exorbitante e lesivo aos interesses do país. Os setores udenistas, liderados pelo governador da Guanabara, Carlos Lacerda, também criticaram a posição do governo, aproveitando a ocasião para denunciar o encaminhamento da compra da Companhia Telefônica Brasileira (CTB), subsidiária da Light, cujo patrimônio, a seu ver, fora superavaliado pelos técnicos do governo federal. A reação provocada pelo acordo com a Amforp levou à criação de uma comissão parlamentar de inquérito sobre o assunto e à suspensão das negociações para a compra das concessionárias de serviços públicos até então em andamento.
Como ministro, foi também presidente do Conselho Nacional de Minas e Energia e da Comissão de Exportação de Materiais Estratégicos. Em 18 de junho de 1963 foi substituído no ministério por Oliveira Brito. Com a deposição de Goulart pelo movimento político-militar de 31 de março de 1964, foi afastado da presidência da Vale, sendo sucedido por Paulo José de Lima Vieira.
De maio desse ano a junho de 1968, foi diretor-presidente da Minerações Brasileiras Reunidas S/A, no Rio de Janeiro. Depois disso, seguiu para Nova Iorque onde assumiu a vice-presidência da Itabira lnternational Company. Em outubro de 1968, foi nomeado diretor da Itabira Eisenerz GMPH, com sede em Dusseldorf, na Alemanha Ocidental, posto no qual permaneceria até junho de 1974, quando foi encerrada a atividade da empresa. Ainda em 1968, com a fundação da Rio Doce Internacional S/A, subsidiária da Vale com sede em Bruxelas, foi designado presidente da empresa.
A partir do governo de Rondon Pacheco (1971-1975) em Minas Gerais, passou a atuar também como consultor e promotor de negócios para o governo mineiro, quando várias indústrias de bens de capital se instalaram no estado. No governo de Aureliano Chaves (1975-1978), essa contribuição cresceu. Também nos anos 1970, dirigiu uma faculdade com Otávio Lacombe, presidente da Paranapanema, uma das maiores mineradoras do país. Situada no Rio de Janeiro, a instituição empregou vários professores perseguidos pelo regime militar (1964-1985).
Em março de 1979, com o início do governo João Figueiredo, voltou a presidir a Companhia Vale do Rio Doce, substituindo Joel Mendes Rennó. Por conta disso, afastou-se da direção da Rio Doce Internacional. Na época, o novo ministro das Minas e Energia, César Cals, havia declarado à imprensa que, tendo em vista o importante papel exercido pelos minérios na balança de pagamentos, a necessidade de o país equilibrá-la e o inesperado aumento das possibilidades brasileiras de exportação de matérias-primas, a Vale do Rio Doce passaria a concentrar suas atividades, até então diversificadas, no minério de ferro e em Carajás. Simultaneamente, todas as demais atividades da empresa seriam transferidas para o setor privado, como o reflorestamento e a produção de celulose, desenvolvidas, respectivamente, pela Florisbra e a Celulose Nipo-Brasileira S.A. (Cenibra), associações da Vale com empresas japonesas.
O Projeto Ferro Carajás, que previa a extração de minério na serra de Carajás, no Sul do Pará, havia sido relegado a segundo plano desde que a United States Steel (US Steel) desfizera a sociedade com a empresa brasileira. Com a nova orientação, no entanto, foram investidos 3,8 bilhões de dólares só no projeto do minério de ferro. As pesquisas desenvolvidas pela empresa na região indicaram que ali também havia cobre de bom teor, manganês - um mineral de alto valor estratégico usado pela siderurgia -, níquel, bauxita (a matéria-prima do alumínio), cassiterita (de onde vem o estanho) e ouro, entre outros minérios. Com base nessas pesquisas, o governo desenvolveu um projeto maior, o Programa Grande Carajás, dirigido por um conselho interministerial. Segundo o economista Sérgio Quintela, em declaração ao Jornal do Brasil de 23 de agosto de 1981, “o Grande Carajás nasceu da concepção estratégica de Eliezer Batista... para o aproveitamento integrado das riquezas hidroelétricas, minerais, agrícolas e florestais da região, buscando tirar o máximo partido da infra-estrutura no minério de ferro (ferrovia de 900 km e porto de águas profundas de São Luís) e da carência mundial de certos produtos metalúrgicos e agrícolas”.
Freqüentemente confundido com o Programa Grande Carajás, o Projeto Ferro Carajás representou a primeira iniciativa de exploração das riquezas da província mineral dos Carajás, abrangendo áreas do Pará até o Xingu, Goiás e Maranhão. De acordo com o cronograma, o minério de ferro de alta qualidade começaria a ser exportado a partir de 1985.
Em julho de 1981, rebatendo as críticas de que a Vale estaria comprometendo o minério de ferro de Carajás a preços aviltantes, respondeu à imprensa que, na verdade, os preços estavam muito abaixo dos encontrados no mercado internacional, mas esse fato se explicava pela necessidade de a empresa gerar divisas.
No mês seguinte, o Conselho Interministerial do Projeto Grande Carajás aprovou a concessão de vários incentivos fiscais ao projeto da Vale do Rio Doce, destacando-se a isenção, por dez anos, do imposto de renda e dos adicionais não-restituíveis, a isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e a manutenção do crédito-prêmio, referente à aquisição de matérias-primas, produtos intermediários e material de embalagem, para a aquisição de equipamentos nacionais, bem como isenção do Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICM). Paralelamente ao de Carajás, a Vale do Rio Doce veio desenvolvendo dois outros projetos - Alumínio do Brasil (Albrás) e Alunorte (Alumina) - em parceria com o consórcio japonês Nalco.
Permaneceu à frente da Vale até abril de 1986, já no governo José Sarney (1985-1990). Durante sua passagem pela companhia, foi também presidente do conselho de administração. Após deixar a presidência da empresa, reassumiu a direção da Rio Doce Internacional.
No início de 1990, recusou convite para integrar a equipe ministerial do presidente Fernando Collor (1990-1992). Mais tarde, contudo, aceitou colaborar informalmente com o governo e, em abril de 1992, assumiu a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), em substituição a Pedro Paulo Leoni Ramos.
Uma de suas primeiras medidas como ministro foi desvincular a SAE das atribuições anteriormente exercidas pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), que havia sido um dos principais aliados da política de repressão do regime militar. Procurando estabelecer novas funções para a secretaria, vinculadas aos problemas do desenvolvimento econômico, coordenou um estudo sobre a crise do setor elétrico. Defendendo a integração dos sistemas sul-americanos, o trabalho apontou a necessidade de retomada do projeto de construção do gasoduto Brasil-Bolívia. Visto como opção tanto para os problemas de poluição ambiental quanto para as ameaças de racionamento de energia, o gasoduto foi objeto da assinatura de um protocolo de intenções entre Collor e o presidente boliviano, Jaime Paz Zamora (1989-1993), sendo sua construção iniciada durante as gestões de Fernando Henrique Cardoso (1995-1998) e Gonzalo Sánchez de Lozada (1993-1997).
Deixou a SAE em outubro de 1992, após a aprovação, pela Câmara, da abertura do processo de impeachment de Collor. Foi substituído por Mário César Flores. No início de 1997, com Rafael de Almeida Magalhães, Erling Lorentzen e Félix de Bulhões, foi um dos fundadores do Conselho Empresarial Brasileiro de Desenvolvimento Sustentado (CEBDS).
Ainda nesse último ano, envolveu-se nos debates sobre a venda da Companhia Vale do Rio Doce. Contrário ao modelo de privatização em bloco adotado pelo governo, sugeriu o desmembramento da estatal e sua venda por áreas de atuação. Segundo afirmou, isso evitaria a formação de monopólios e aumentaria o valor da empresa. Em consequência de suas críticas, chegou a ser acusado por membros do governo de ter sido o responsável pela divulgação à imprensa de um relatório sobre a descoberta de novas jazidas em Carajás, de valor ainda desconhecido. Objeto de uma reportagem publicada pelo jornal O Estado de São Paulo em janeiro de 1997, o caso serviu como pretexto para as ações impetradas pela oposição contra a venda da Vale.
Em fins de abril, deixou a presidência da Rio Doce Internacional, assumindo uma cadeira no Conselho Coordenador de Ações Federais do Rio de Janeiro, da Federação das Indústrias do estado (Firjan). Coordenou o projeto Infra-Estrutura de Longo Alcance de Desenvolvimento Sustentado - Rio Século 21. Após o leilão da Vale - vencido em maio daquele ano por um consórcio liderado pelo grupo Vicunha -, negou convite para integrar a nova diretoria da empresa.
Em julho de 1997, tornou-se membro do conselho de administração das Indústrias Klabin, assumindo, no mês seguinte, um assento no conselho de desenvolvimento estratégico do grupo Inepar.
Em 1998, integrou também o conselho de administração da Sharp do Brasil S.A. No segundo governo Fernando Henrique Cardoso, iniciado em janeiro do ano seguinte, tornou-se membro do Conselho Coordenador das Ações Federais no Rio de Janeiro, órgão ligado à presidência da República.
Único brasileiro a receber o título de honoris causa da Academia Russa de Ciências, foi ainda professor catedrático de economia política, estatística e finanças na Escola Politécnica do Espírito Santo. Adepto das teses desenvolvimentistas, recuperou, no plano intelectual, as ideias do ex-ministro da Fazenda Lucas Lopes, chamando frequentemente a atenção para a importância dos problemas de infra-estrutura e do desenvolvimento sustentável na formulação dos planejamentos econômicos.
Casou-se com a alemã Juta Fuhrken, com quem teve sete filhos.
Publicou Infra-estrutura para o desenvolvimento sustentado e integração da América do Sul (1997).