AMORIM, Celso

Celso Luís Nunes de Amorim nasceu em Santos (SP) no dia 3 de junho de 1942, filho de Vicente Mateus Amorim e Beatriz Nunes Amorim.

Completou o curso de preparação à carreira de diplomata no Instituto Rio Branco (IRBr) em 1964, iniciando sua carreira em fevereiro do ano seguinte como terceiro secretário. Na Secretaria de Estado das Relações Exteriores (SERE), que na época funcionava no Palácio Itamarati do Rio de Janeiro, exerceu o cargo de assistente do chefe da Divisão da Europa Ocidental e, nessa função, participou da III Reunião do Grupo Misto de Cooperação Industrial Brasil-Espanha em Madri. Em 1967 concluiu o mestrado em relações internacionais na Academia Diplomática de Viena (Áustria) e, de volta à SERE, exerceria o cargo de assistente do secretário-geral-adjunto para planejamento político ainda em 1967, sendo promovido, por antigüidade, a segundo-secretário em novembro do mesmo ano. Removido para Londres (Reino Unido) exerceu as funções de cônsul-adjunto de 1968 a 1969, tendo participado como observador da conferência sobre desenvolvimento na Universidade de Cambridge (1969). Nos anos seguintes serviu na embaixada em Londres como segundo secretário (1969-1971), tendo feito estudos de doutorado em ciência política e relações internacionais na London School of Economics and Political Science em 1971. Transferido no ano seguinte para Washington (EUA), exerceu o cargo de segundo secretário na missão do Brasil junto à Organização dos Estados Americanos (OEA) até 1973. Ainda em 1972 foi assessor da Conferência Interamericana Especializada sobre Ciência e Tecnologia (Cactal) em Brasília e participou do II Período Ordinário de Sessões da Assembleia Geral da OEA, da LXVIII Reunião do Comitê Executivo da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e da reunião de técnicos governamentais da Cactal em Washington.

Promovido a primeiro secretário por merecimento em janeiro de 1973, continuou a servir na missão do Brasil junto à OEA até 1974, tendo ocupado o cargo de encarregado de negócios em 1973, ano em que participou ainda do III Período de Sessões da OEA em Washington, da VIII Reunião Anual do Conselho Interamericano Econômico e Social (CIES) - depois Comissão Interamericana de Desenvolvimento Integral (CIDI) - em Bogotá (Colômbia), da XV Reunião da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) em Quito (Equador) e da LIV Sessão do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (Ecosoc) em Nova Iorque. Tomou parte, também em 1973, da reunião de técnicos governamentais em propriedade industrial, da IV Reunião Ordinária da CECON, da II Reunião de Consulta da CECON sobre Negociações Comerciais Multilaterais e do segundo período da reunião da Comissão Especial para a Reestruturação do Sistema Interamericano (Washington).

Chefe da III Reunião Extraordinária da CECON em Washington em 1974, no mesmo ano participou da IX Reunião Anual do CIES em Quito, do IV Período Ordinário de Sessões da Assembleia Geral da OEA em Atlanta (EUA) e da sessão preparatória do Grupo de Trabalho sobre Empresas Transnacionais (Novo Diálogo) em Washington. De volta à SERE, já funcionando no Palácio Itamarati de Brasília, foi assessor do ministro das Relações Exteriores, embaixador Antônio Francisco Azeredo da Silveira, de 1975 a 1977, quando também lecionou expressão e redação profissional no IRBr (1976). Promovido em 1977, por merecimento, a conselheiro, deste ano a 1979 foi professor de ciência política e relações internacionais na Universidade de Brasília (UnB) e chefiou a Divisão de Difusão Cultural (DDC). No mesmo período foi representante titular do Ministério das Relações Exteriores (MRE) junto ao Conselho Nacional de Cinema (Concine) e, em 1979, licenciado do MRE, diretor-geral da Empresa Brasileira de Filmes (Embrafilme), cargo que exerceria até 1982.

Promovido em 1980 a ministro de segunda classe, de 1982 a 1985 serviu como ministro conselheiro na embaixada do Brasil em Haia (Países Baixos), onde exerceria as funções de encarregado de negócios em 1983 e 1985. De volta ao Brasil, entre 1985 a 1987 foi assessor de cooperação e programas especiais do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), tendo sido subchefe da II Conferência de Ministros Encarregados da Aplicação da Ciência e Tecnologia ao Desenvolvimento da América Latina e Caribe em Brasília (1985). Participou da reunião ministerial das partes contratantes do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) - desde 1995, Organização Mundial do Comércio (OMC) -, em Punta del Este (Uruguai) em 1986. No mesmo ano, participou dos entendimentos com o governo dos Estados Unidos sobre assuntos do relacionamento econômico-comercial em Paris (França) e chefiou a subcomissão intergovernamenal Brasil-União Soviética de cooperação comercial, econômica, científica e tecnológica em Brasília.

Entre 1987 e 1988 foi secretário especial de assuntos internacionais do MCT, tendo participado em 1987 da mesa-redonda sobre o desenvolvimento da informática, realizada em Tóquio, no Japão. Chefe da missão do MCT enviada à Alemanha Oriental e à Hungria em 1988, no ano seguinte foi promovido, por merecimento, a ministro de primeira classe, e chefiou a delegação brasileira à VII Reunião da Comissão Mista Cultural Luso-brasileira. Ainda em 1989 representou o MCT em várias comissões mistas e reuniões internacionais sobre ciência e tecnologia.

Sua passagem pelo MCT deu-se em um momento extremamente delicado das relações internacionais brasileiras. Ao integrar o MCT, Amorim pôde participar diretamente de discussões cruciais, entre as quais a que dizia respeito à política brasileira em relação à informática e em relação às patentes farmacêuticas que faziam parte, junto com a questão da dívida externa, do contencioso com os EUA. Neste momento, essas questões também estavam em pauta na Assembleia Nacional Constituinte, o que atraía as atenções para a área de ciência e tecnologia.

Ainda em 1989 representou o MRE no II Encontro Nacional das Assessorias das Universidades Brasileiras para Assuntos Internacionais em Belo Horizonte (1989) e na IX Conferência Regional das Comissões Nacionais para a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) de Países da América Latina e do Caribe no Rio de Janeiro (1989). Foi também delegado no I Encontro de Ministros da Cultura da América Latina e do Caribe, em Brasília, e chefiou a delegação do Brasil na III Reunião do Grupo de Trabalho do Protocolo 18 de Integração Cultural Brasil-Argentina no Rio de Janeiro. Ainda em 1989 participou da XXV Sessão da Conferência Geral da UNESCO em Paris, do encontro dos chefes de estado de língua portuguesa em São Luís do Maranhão, da II Reunião da Comissão Mista Brasil-RFA em Bonn (Alemanha Ocidental) e, no ano seguinte, em Mar del Plata (Uruguai), foi chefe da delegação do Brasil ao II Encontro de Ministros da Cultura da América Latina e do Caribe. Em Brasília, chefiou a delegação brasileira à I Reunião da Comissão Mista Cultural Brasileiro-Soviética (1990).

Chefe do Departamento Econômico do Itamarati entre 1990 e 1991, coordenou nesse período a seção brasileira do grupo Mercado Comum Brasil-Argentina e chefiou a equipe negociadora do Brasil no tratado de Assunção. Foi co-presidente da Seção Brasileira do Comitê Permanente de Política Nuclear Brasil-Argentina e chefiou a equipe negociadora do Brasil no acordo entre os governos da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai e do governo dos Estados Unidos, relativo a um conselho sobre comércio e investimentos no âmbito da Iniciativa para as Américas. Em 1991 foi nomeado representante permanente do Brasil junto às organizações internacionais sediadas em Genebra (Suíça), entre as quais o GATT. Essa mudança aconteceu com a ida do então embaixador nos EUA, Marcílio Marques Moreira, para o Ministério da Economia e com a nomeação do embaixador Rubens Ricupero (que ocupava o posto em Genebra) para ocupar o cargo de Moreira.

Celso Amorim foi também o principal negociador brasileiro para a Rodada do Uruguai (GATT) entre 1991 e 1993 e participou da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento no Rio de Janeiro (Rio-92). Durante o período em que representou o Brasil junto ao GATT, Amorim presenciou a abertura comercial do Brasil promovida pelo presidente Fernando Collor de Melo. O Brasil, que possuía anteriormente uma enorme lista de proibições em suas importações, passou a permitir a vinda de produtos importados visando uma estabilização de preços e um aumento da competitividade da indústria nacional.

Com o governo Fernando Collor de Melo (1990-1992), a política externa brasileira foi significativamente alterada em relação à linha que vinha sendo seguida desde o governo do general Ernesto Geisel (1974-1979). Ao liberalizar a economia, o governo brasileiro mudou o discurso oficial, que apresentava-se extremamente defensivo em diversas áreas (entre elas, questões-chave como direitos humanos e meio ambiente) e passou a adotar uma postura mais propositiva e cooperativa no sistema internacional, inclusive privilegiando foros multilaterais de discussão como a ONU e o GATT, nos quais Amorim permaneceu durante a maior parte do período.

No Ministério das Relações Exteriores

Em julho de 1993, sucedeu a Fernando Henrique Cardoso no Ministério das Relações Exteriores do governo Itamar Franco (1992-1994). Inicialmente nomeado secretário-geral do Itamarati, Amorim assumiu a pasta em face da impossibilidade do nome indicado, José Aparecido de Oliveira, ocupar o posto por questões de saúde. Amorim entrou muito prestigiado internamente por ser um diplomata de carreira a preencher um posto há muito tempo ocupado por pessoas de fora do Itamarati. Nesse período, discursando na 48ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas (setembro, 1993), defendeu as ações do governo do presidente Itamar Franco no campo dos direitos humanos e da paz internacional, enfatizando a interdependência indissolúvel de democracia, desenvolvimento e direitos humanos. Parafraseando o embaixador Araújo Castro, afirmou o compromisso brasileiro com os “três Ds”: Democracia, Desenvolvimento e Desarmamento. Lembrou ainda a experiência do Brasil no campo da construção da paz, trabalho ininterrupto desenvolvido com dez vizinhos ao longo de 17 mil quilômetros de fronteiras.

Na sua gestão à frente do MRE, o Brasil enviou a sua primeira missão de paz a Moçambique, através da ONU. No mês seguinte, em almoço com os chanceleres dos países lusófonos, enfatizou a importância dos entendimentos para a constituição definitiva da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa, projeto que acabava de ser lançado pelo embaixador José Aparecido de Oliveira em Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. No mesmo mês, por ocasião da posse do secretário-geral do MRE, embaixador Roberto Abdenur, definiu a política externa do governo Itamar Franco como “voltada para o desenvolvimento do país, para a afirmação dos valores democráticos e sem alinhamentos outros que não aqueles ligados à ética e aos interesses do povo brasileiro”, ressaltando a integração com a América do Sul em geral e o Mercosul em particular como prioritária.

Foi na gestão de Celso Amorim que o governo brasileiro explicitou sua intenção de participar ativamente de uma reforma na composição dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Assumindo o governo após um conturbado processo de impeachment, a política externa do governo Itamar Franco representou uma tentativa de “correção de rumos”, tentando frear a liberalização total promovida pelo governo Collor, retomando algumas barreiras comerciais e afirmando uma maior necessidade de participação da sociedade civil nas questões de política externa (uma democratização da política externa). Com um enfoque e uma formação inspirados pela corrente desenvolvimentista do Itamarati, Celso Amorim foi o principal artífice da mudança de atitude do governo Itamar Franco em relação à política externa brasileira do período Collor.

Deixou a pasta em 31 de dezembro de 1994, ao final do governo Itamar, sendo sucedido por Luís Felipe Lampreia, indicado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.

Celso Amorim foi indicado, também por Fernando Henrique Cardoso, para chefiar a missão permanente do Brasil nas Nações Unidas, em Nova Iorque, função que exerceu entre 1995 e 1999. Nesse período, tornou-se membro da Comissão de Camberra para a Eliminação das Armas Nucleares e membro permanente da área de assuntos internacionais do Instituto de Assuntos Avançados da Universidade de São Paulo. Em 1999, assumiu a chefia da missão brasileira na Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra, Suíça.

Em 2000, foi presidente da Conferência sobre Desarmamento e entre 2000 e 2001, foi presidente do Conselho de Administração da Organização Internacional do Trabalho e do Conselho de Negociação Intergovernamental da Convenção sobre Controle do Tabaco. No ano de 2001, foi presidente do Conselho para o Comércio de Serviços da Organização Mundial do Comércio. Nesse ano, Amorim foi transferido para Londres, assumindo a embaixada brasileira no Reino Unido.

Em novembro de 2001, Celso Amorim foi um dos representantes da delegação brasileira da IV Conferência da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Doha, no Catar. Neste evento, o país liderou as nações em desenvolvimento na vitória contra os Estados Unidos, que permitiu o licenciamento compulsório de patentes de medicamentos em casos de emergência nacional. Com uma estratégia agressiva, que incluiu a veiculação de peças publicitárias nos EUA sobre a importância dos medicamentos para os brasileiros, o Brasil sensibilizou o mundo. Os EUA retiraram a representação contra o Brasil ainda naquele ano.

De volta ao Itamarati

No final de 2002, foi convidado pelo presidente eleito Luís Inácio Lula da Silva para ser seu ministro das Relações Exteriores. Desde novembro desse ano, Lula acenava com a possibilidade de Amorim assumir essa pasta. O presidente eleito havia pedido a opinião do embaixador sobre temas relevantes de política internacional, comércio exterior e questões relacionadas à América Latina.

Em seu segundo ministério, Amorim tornou-se responsável elo direcionamento humanista da política externa brasileira atual, que incluiu entre seus objetivos a luta contra a fome, a pobreza e o unilateralismo. Formulou coalizões com países do hemisfério sul, tais como G-20 (luta pela redução das distorções no comércio agrícola, na Organização Mundial de Comércio), o G-4 (luta para tornar o Conselho de Segurança das Nações Unidas menos anacrônico e mais legítimo e representativo), o G-3 (Fórum IBAS – Índia, Brasil e África do Sul – para coordenação de posições no cenário internacional) e participou ativamente na institucionalização do chamado BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China).

Em 8 de dezembro de 2004, na cidade de Cuzco (Peru) foi realizada a 3ª Reunião de presidentes da América do Sul. Nesta ocasião, foi redigido um documento (Declaração de Cuzco) que criou as bases para um projeto de integração da América Latina, que, nessa oportunidade, recebeu o nome de Casa (Comunidade Sul-Americana de Nações). Em 16 de abril de 2007, durante a 1ª Reunião Energética da América do Sul, realizada na Venezuela, o nome foi modificado para União das Nações Latino-americanas (Unasul). Fazem parte da Unasul os seguintes países: Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Chile, Guiana, Suriname e Venezuela. O objetivo principal da Unasul era propiciar a integração entre os países da América do Sul. Esta integração ocorreria nas áreas econômica, social e política. Dentro deste objetivo, esperava-se uma coordenação e cooperação maior nos segmentos de educação, cultura, infraestrutura, energia, ciências e finanças.

Em 2006, após a vitória nas eleições presidenciais de Evo Morales, a Bolívia anunciou a nacionalização do gás e do petróleo em seu território, utilizando o exército para a ocupação de empresas estrangeiras, entre elas a Petrobras. A estatal brasileira explorava os dois principais campos de gás e representava cerca de 15% do Produto Interno Bruto boliviano. A tomada do controle forçou as companhias estrangeiras a rever seus contratos em um prazo de 180 dias; do contrário, seriam obrigadas a deixar o país. As renegociações aumentaram os impostos cobrados pelo estado boliviano para 82%. No dia 1 de maio do mesmo ano, Celso Amorim afirmou que a nacionalização era um “cenário esperado”, mas que a forma como fora feita não estava nas previsões do Brasil, classificando como “desnecessária” a ocupação por tropas militares da Petrobras e explicando que não haveria “reação física”. Em novembro de 2007, Morales garantiu que não modificaria mais as leis de investimentos no setor de petróleo ou gás, e Celso Amorim confirmou que o país voltaria a investir nestas condições. Tanto o Brasil como a Bolívia possuíam interesses mútuos: o primeiro, em 2007, dependia de 50% do gás boliviano exportado; e o segundo não poderia ficar sem o investimento e o mercado brasileiro.

Na Conferência do Clima da ONU realizada em dezembro de 2007, em Bali, na Indonésia, a delegação brasileira – chefiada por Celso Amorim, pelo ministro Sergio Resende, da pasta de Ciência e Tecnologia, e pela ministra Marina Silva, do Meio Ambiente – colocou-se contra metas obrigatórias de redução de gases para países em desenvolvimento e em defesa de maiores responsabilidades por parte das nações ricas, inclusive com financiamento e transferência de tecnologia. O Brasil voltou a defender sua proposta já apresentada na 12º Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-12) em 2006, de compensação financeira por reduções comprovadas de desmatamento, com dinheiro de um fundo internacional abastecido pelos países desenvolvidos. Outra diretriz da participação brasileira foi a sugestão de um mecanismo para discussão e financiamento de políticas públicas de redução de emissões em países em desenvolvimento.

Em 23 de maio de 2008, em Brasília, foi assinado por 12 chefes de Estado latino-americanos, o tratado para formalizar a criação da Unasul. De acordo com o documento, a Unasul passou a ser um organismo internacional, deixando a fase de debates para entrar na criação prática de medidas.

Durante a crise diplomática da Colômbia com Equador e Venezuela de 2008, em que o exército colombiano invadiu o território equatoriano para matar integrantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Amorim afirmou que o Brasil se sentia “ameaçado indiretamente” por um conflito na região e que condenava o ataque militar colombiano; porém, desejava a resolução pelo diálogo para que o projeto de integração, paz e desenvolvimento na América do Sul não fosse posto em risco.

No dia 23 de setembro de 2008, o presidente equatoriano Rafael Correa determinou o embargo dos bens da construtora brasileira Odebrecht, ocupando os canteiros de obra da empresa com tropas do Exército e proibindo funcionários de deixar o país. Exigiu então uma indenização de 43 milhões de dólares por falhas no funcionamento da central hidrelétrica San Francisco, a segunda maior do Equador; caso não fosse feito o pagamento, a Odebrecht seria expulsa. A San Francisco, que custou 338 milhões de dólares, poderia gerar até 12% do total da energia consumida no país, mas, segundo o Equador, deixou de funcionar um ano depois de concluída. No dia seguinte, Amorim anunciou que o Brasil estava dando proteção à empresa. Correa então ameaçou não pagar o empréstimo de mais de 200 milhões de dólares do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que contraiu para financiar a San Francisco. Mesmo assim, os presidentes Correa e Lula disseram que acreditavam que a questão da Odebrecht não afetaria as relações entre as duas nações. Em 30 de setembro, Amorim informou que a empresa aceitaria o acordo proposto pelo Equador. Em 6 de outubro, Correa teria dito que pretendia expulsar a Petrobras, como aconteceu à Odebrecht, e nacionalizar um campo de petróleo. Sua intenção era acelerar a assinatura de uma renegociação do contrato de exploração. A tensão entre os países cresceu, com ameaças de ambos os presidente, porém, em 20 de outubro, a Petrobras confirmou um novo acordo com o Equador, no qual o Estado ficava com todo o petróleo e a empresa, com uma remuneração pelos seus investimentos e seu serviço.

Em 21 de outubro, Amorim convocou o embaixador brasileiro em Quito para consultá-lo a respeito da decisão de Correa de recorrer à Corte Internacional de Arbitragem da Câmara Internacional de Comércio, sediada em Paris, para a suspensão da dívida com o BNDES. Em novembro, ele declarou que o Brasil revisaria sua cooperação com o Equador, mas apenas a que envolvesse novos financiamentos e créditos, pois a de caráter social não acabaria.

Em dezembro, porém, surgiu o receio de que outros países sul-americanos, como a Venezuela, a Bolívia e o Paraguai, não honrassem seus empréstimos com o BNDES. O embaixador do Equador anunciou então que seu país continuaria pagando, em parcelas, seu empréstimo até a decisão da Câmara Internacional de Comércio. Durante esse processo, Celso Amorim observou que a integração sul-americana estava sendo prejudicada e que, por ter garantia do Convênio de Crédito Recíproco (CCR), a dívida, se não fosse paga, afetaria não só o Brasil como também outros países da região, uma vez que havia um conjunto de Bancos Centrais envolvidos. Em 11 de janeiro de 2009, o Itamaraty informou que o embaixador brasileiro em Quito voltaria à sua função e que o Brasil continuaria acompanhando com atenção suas relações financeiras com o Equador.

Em maio de 2009, Celso Amorim recebeu a Grã-Cruz da Ordem do Mérito da República Federal da Alemanha. A condecoração foi conduzida pelo embaixador alemão Prot von Kunow, em nome do presidente federal Horst Köhler, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. Em seu discurso, o embaixador von Kunow elogiou Celso Amorim, que foi escolhido pelo “trabalho excepcional” realizado em seus mais de seis anos de mandato, responsável pelo maior peso da política externa do Brasil na cena internacional.

Em reportagem da revista Isto É de junho de 2009, foi divulgado que Celso Amorim e o iraniano Manoucherch Mottaki teriam negociado secretamente a cooperação entre os sistemas bancários do Brasil e Irã. Como isso violava advertências do Conselho de Segurança da ONU e sanções dos EUA, a repercussão do caso na mídia foi intenso. Segundo a matéria, o acordo previa mecanismos financeiros para facilitar a exportação e a importação de bens e serviços, incluindo operações de reexportação para terceiros países (o que permite ao Irã escapar do embargo por uma triangulação comercial), a criação de joint ventures, a abertura de bancos iranianos no Brasil e a assinatura de um acordo entre os bancos centrais para troca de informações sobre o sistema financeiro.

O Brasil e a crise em Honduras

No segundo semestre de 2009, explodiu em Honduras uma grave crise política. Manuel Zelaya, que se elegera por uma coalizão de centro-direita em uma acirrada disputa em 2005, se aproximou durante o exercício do mandato do presidente venezuelano Hugo Chávez e vinha enfrentando uma oposição cada vez mais severa em seu país. Em 28 de junho, foi derrubado por um golpe militar e obrigado a deixar o país rumo à Costa Rica. Segundo a oposição, Zelaya pretendia incluir nas cláusulas das eleições presidenciais de novembro deste ano uma consulta sobre a possibilidade de mudar a Constituição do país para poder se reeleger. Isso foi usado como argumento para o golpe.

Zelaya foi substituído no poder por Roberto Micheletti, presidente do Congresso. Micheletti teve o apoio de setores conservadores, embora ambos fossem do mesmo partido político, o Partido Liberal, que saiu dividido da crise. O presidente deposto também era acusado de corrupção. O governo interino tinha uma ordem de prisão contra Zelaya por “traição” e prometia prendê-lo caso ele voltasse ao país.

Em 24 de julho, Zelaya tentou voltar ao país para tentar retomar o poder, mas foi barrado pelo exército hondurenho na fronteira. Porém, em 21 de setembro, conseguiu entrar no país, buscando refúgio na embaixada do Brasil na capital Tegucigalpa. Tropas leais ao governo interino cercaram o prédio, abrindo uma crise diplomática entre Brasil e Honduras. O ministro Celso Amorim reiterou o apoio brasileiro ao presidente deposto de Honduras durante todo o processo de negociação, e alertou que o governo “golpista” deveria se afastar, o quanto antes, para evitar maiores danos à população hondurenha. O auxílio brasileiro a Zelaya teve grande repercussão na mídia nacional e internacional.

Com a chegada a Honduras do subsecretário para América Latina dos Estados Unidos, Thomas Shannon, o diálogo entre Zelaya e o governo interino foi retomado, e, em 29 de outubro, os dois lados anunciaram um acordo, segundo o qual a restituição de Zelaya seria decidida pelo Congresso, como queria o governo deposto. Em 17 de novembro, o presidente do Congresso anunciou que a decisão sobre a volta de Zelaya seria tomada apenas em 2 de dezembro, três dias depois da data marcada para as eleições presidenciais. No dia 29 de novembro, ocorreram as eleições presidenciais em Honduras, com a vitória do candidato Porfírio Lobo. O resultado teve o reconhecimento dos Estados Unidos, mas não o do governo brasileiro, e o impasse prosseguiu.

Em julho de 2009, a jornalista Malu Gaspar noticiou no blog da revista Exame sua apuração de que o título de doutor que Celso Amorim ostentava era falso, pois o ministro jamais concluíra seu doutorado na London School. Amorim, que até então usava o título indiscriminadamente – como em sua biografia no site do Ministério das Relações Exteriores e em artigos de jornal –, declarou: “Nunca terminei meu doutorado, provavelmente por causa do meu excesso de ambição à época. O tempo da academia e da burocracia não coincidiram, então fui transferido de Londres antes que pudesse terminá-lo.”

Em setembro, foi noticiada sua filiação ao Partido dos Trabalhadores (PT). Amorim se inscreveu como membro do PT em Teresópolis (RJ), onde tem residência e onde está registrado seu título eleitoral. Apesar de o ministro nunca ter manifestado sua intenção de seguir carreira política, sua filiação ao PT ocorreu na semana em que terminava o prazo de inscrição em legendas para os interessados em disputar as eleições de 2010.

Celso Amorim não pôde estar presente no data do anúncio da escolha da cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016, dia 2 de outubro de 2009, durante a 121ª Assembleia da entidade, realizada em Copenhague, na Dinamarca, que resultou na vitória do Rio de Janeiro. Embora tenha sido um importante defensor dessa candidatura durante suas viagens ao exterior, estava envolvido, no período, com o agravamento da crise política em Honduras, onde a embaixada brasileira abrigava o presidente deposto do país, Manuel Zelaya.

Em 7 de outubro, a revista americana Foreign Policy indicou Amorim como “o melhor chanceler do mundo”.

Em novembro, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, visitou o Brasil, encerrando a primeira etapa de um ciclo de articulações, coordenada por Celso Amorim, em busca da paz no Oriente Médio. Ahmadinejad esteve no país uma semana depois da passagem do presidente de Israel, Shimon Peres, e dois dias após a vinda do líder da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas. Antes, em janeiro, Celso Amorim, havia feito uma série de visitas ao Oriente Médio, reunindo-se com os principais representantes da região. A visita do presidente iraniano – que, em outras ocasiões, teria contestado a existência do Holocausto e condenado o homossexualismo – gerou inúmeras manifestações em várias capitais do país.

No Ministério da Defesa

Em 8 de agosto de 2011, Celso Amorim assumiu o comando do Ministério da Defesa do governo de Dilma Rousseff, sucedendo Nelson Jobim. Sua nomeação se deu em um quadro de tensão política, pois seu antecessor entregara o cargo após fazer críticas públicas às ministras Gleisi Hoffman, da Casa Civil, e Ideli Salvati, da Secretaria de Direitos Humanos, o que inviabilizara sua continuidade como ministro. Ao assumir a pasta, teve como principais missões negociar recursos para a modernização das Forças Armadas e consolidar a autoridade civil do Ministério sobre os militares.

Ao longo de sua permanência à frente do ministério, Amorim enfrentou diversos desafios, como a instituição da Comissão Nacional da Verdade (CNV); a escolha do fornecedor dos novos caças para a Força Aérea Brasileira; a retirada do contingente do Exército brasileiro do Morro do Alemão no Rio de Janeiro; e a negociação da gradual saída das tropas brasileiras do Haiti.

Instituída em março de 2012, a CNV foi um assunto extremamente delicado para as Forças Armadas desde o início, uma vez que tinha por objetivo investigar as violações de direitos humanos cometidas entre 1946-1988, principalmente aquelas perpetradas pelos agentes do Regime Militar (1964-1985). Um pouco antes do início de seus trabalhos, um grupo de militares da reserva publicou manifesto onde questionavam a validade da CNV e afirmavam desconhecer a autoridade do novo Ministro. Assim, o principal papel do ministro foi intermediar os trabalhos da Comissão com a cúpula das Forças Armadas e, principalmente, intermediar a elaboração do relatório final. Para Amorim, esse tema foi o mais demandante em sua gestão no Ministério, tendo considerado uma vitória o fato de os militares terem deixado de negar as violações.

Depois de 13 anos de negociações intensas, a gestão de Amorim no Ministério da Defesa anunciou a compra de 36 caças Gripen NG (New Generation), da empresa sueca Saab, para a Força Aérea Brasileira. O valor total da transação foi de US$4,5 bilhões, tendo envolvido também a transferência de tecnologia. A decisão de compra dos caças suecos foi considerada surpreendente, pois a preferência inicial do governo brasileiro era pelos caças norte-americanos, fabricados pela empresa Boing. No entanto, o episódio de espionagem eletrônica da presidente Dilma Rousseff por uma agência de espionagem dos Estados Unidos acabou revertendo a situação a favor dos suecos.

Outro ponto importante da gestão de Celso Amorim a frente do Ministrério da Defesa foi a questão das tropas brasileiras no Haiti. Após 10 anos da presença militar brasileira à frente da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (MINUSTAH) Amorim começou a abrir o caminho para a saída do contingente brasileiro, em torno de 2 mil militares. De acordo com o ministro, em 2014 o Haiti teria sua terceira eleição democrática, demostrando um maior grau de estabilidade sociopolítica e, portanto, indicando maior capacidade do governo haitiano em lidar com sua própria segurança. Esses indicadores, em conjunto com a avaliação das Nações Unidas, dariam as condições para a conclusão gradual da MINUSTAH.

Já no final do ano de 2014, Amorim expressou o desejo de deixar a Pasta, não acompanhando portanto a presidente Dilma Rousseff em seu segundo mandato, para o qual acabara de ser eleita. Em 1 de janeiro de 2015, foi substituído por Jaques Wagner, ex-governador do Estado da Bahia.

Celso Amorim publicou vários trabalhos sobre teoria política, relações internacionais, política cultural e temas ligados à ciência e tecnologia. Teve também publicados os livros: Conversas com jovens diplomatas (2011), Breves narrativas diplomáticas (2013) e Teerã, Ramalá e Doha: memórias da política externa ativa e altiva (2015).

Casou-se com Ana Maria Amorim, com quem teve quatro filhos.