JUVENTUDE OPERÁRIA CATÓLICA (JOC)
| Tipo | Temático |
|---|---|
| Autor(es) | Mônica Kornis |
Associação civil católica reconhecida nacionalmente pela hierarquia eclesiástica em 1948 como setor especializado da Associação Católica Brasileira (ACB) destinado à difusão dos ensinamentos e da doutrina da Igreja no meio operário.
Antecedentes
Logo após a criação da ACB em 1935, formaram-se em algumas dioceses do país grupos especializados de atuação nos meios estudantil e operário. Nessa época, foi criada a JOC na diocese do Rio de Janeiro.
Entretanto, a formação nacional da JOC, da Juventude Estudantil Católica (JEC), e da Juventude Universitária Católica (JUC) só se tornou possível em consequência das reformulações sofridas pela ACB após a morte de seu organizador, o cardeal Sebastião Leme da Silveira Cintra, ocorrida em 1942. Depois do reconhecimento nacional da JOC em 1948, consolidaram-se em 1950 os novos estatutos da ACB. A adoção dos modelos francês, belga e canadense de organização do laicato veio reduzir a importância das dioceses e valorizar os grupos nacionais ligados aos diferentes setores da sociedade.
Atuação
Vinculando-se à JOC internacional, a JOC brasileira adotou o método “ver, julgar e agir”, que consistia em analisar a realidade à luz da doutrina da Igreja, traçando em seguida linhas de ação.
Em julho de 1954, dom José Távora, bispo auxiliar do Rio de Janeiro e assistente nacional da JOC, presidiu a reunião em que foram definidos os objetivos da entidade. Sua principal atribuição seria formar líderes católicos capazes de assumir a direção da classe operária, na tentativa de evitar a influência comunista.
Em agosto de 1957, em Roma, a JOC internacional reuniu trabalhadores de 87 nações com a finalidade de “dar a conhecer ao mundo as necessidades dos jovens trabalhadores de todos os países”, além de esclarecer as concepções fundamentais da organização.
Em 1960, a ACB começou a se envolver com o trabalho nos centros urbanos. A Associação Católica Operária (ACO) - equivalente adulto da JOC - e a própria JOC prosseguiram seus trabalhos de evangelização do meio operário, mesmo de forma limitada, sob a direção da hierarquia eclesiástica.
Em outubro de 1961, realizou-se no Brasil o II Congresso Mundial da JOC. Nessa época, a entidade congregava três milhões de jovens trabalhadores em 97 países. O conselho mundial da JOC era o órgão supremo do movimento jocista. Reunia-se de quatro em quatro anos para eleger novos dirigentes, debater sobre as atividades do período e traçar novas diretrizes, com a finalidade de “educar o operário, tornando-o consciente de seu valor como ser humano”. Em 1961, foi eleito para a presidência da JOC internacional o brasileiro Bartolo Peres. Até 1964, o trabalho da JOC foi bastante intenso em várias cidades e um dos mais estruturados da ACB. Voltada sobretudo para os problemas concretos do jovem trabalhador, a organização relegou ao segundo plano os temas políticos. Por essa razão, não entrou em conflito com o episcopado, e, ao contrário de outras organizações católicas como a JUC, a JEC ou o Movimento de Educação de Base (MEB), nada sofreu com a repressão desencadeada pelo movimento político-militar de março desse ano.
Em julho de 1965, afirmando que “os operários não são responsáveis se a inépcia e a corrupção administrativas empobreceram o país”, a JOC de Porto Alegre reivindicou novas oportunidades de trabalho, bem como “medidas urgentes e decididas para que a nação não seja construída com a forma e os sentimentos dos mais fracos, mas com o sacrifício e o trabalho de todos”. A organização adotava assim uma posição crescentemente crítica.
Até 1968, a JOC e a ACO foram dirigidas por conselhos nacionais e regionais. Nesse ano, a JOC contava com 527 militantes, 101 dirigentes e 26 coordenadores permanentes. Entre seus aderentes, 144 desempregados formavam o grupo mais numeroso, seguido por 130 operários industriais e 77 empregadas domésticas. Os recursos para a manutenção da organização provinham principalmente da JOC internacional, sediada em Bruxelas, da França e da Itália.
Em 1968, vários elementos da Igreja foram perseguidos por seu apoio às manifestações operárias e estudantis de repúdio ao regime vigente. Essa situação se agravou após a realização do congresso nacional conjunto da JOC e da ACO em Recife. Uma das teses defendidas nesse encontro propunha que, através das greves e de um partido político organizado, se acabasse “com a instituição do patronato, para alcançar o objetivo final de uma sociedade sem classes”. Tendo em vista o caráter das posições assumidas pelo congresso, a JOC internacional enviou ao Brasil o padre australiano Brian Burke para negociar um recuo nas decisões dos jocistas.
Além da intervenção do padre Burke, a perseguição do governo militar freou uma atuação mais radical da JOC. Várias prisões foram efetuadas sob a alegação de que a mobilização operária era promovida por “elementos estranhos a esse meio”.
Dois dias depois do início da greve de Osasco, deflagrada nos primeiros meses de 1968, o padre operário francês ligado à JOC, Pierre Wauthier, foi detido. Apesar dos protestos do cardeal Agnelo Rossi e de vários bispos, o padre Wauthier saiu da prisão somente dois meses depois, sendo expulso do país. No final do ano, foi preso outro assistente da JOC, o padre Michel Le Ven.
Em 1969, jovens operários elaboraram um documento intitulado Ação e orientação da JOC no Brasil, exigindo dos bispos uma declaração pública contra a repressão aos movimentos de trabalhadores, e endossando as críticas ao capitalismo já formuladas no congresso de Recife.
Em julho desse mesmo ano, o padre Burke comunicou à assembleia geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que a JOC do Brasil não podia ser julgada pelas decisões e declarações do congresso de Recife, em vista do fato de alguns militantes terem sido manipulados por grupos políticos. Afirmou também que o objetivo dos jocistas era “dar prioridade aos aspectos educativo e apostólico do movimento a partir de pequenas ações na vida cotidiana”.
Em fins de 1970, padres e leigos da JOC do Rio de Janeiro e de Volta Redonda (RJ), adeptos de uma nova doutrina social para a Igreja, foram presos. O padre Natanael Campos, de Volta Redonda, foi torturado, mesmo com o pedido da CNBB de que os padres não sofressem torturas.